The Odissey (2026)
Mais um filmaço do realizador que não sabe compor em linha reta.
À medida que a fita ia desenrolando ia-me lembrando das peripécias de Ulisses e das suas aventuras, dos seus companheiros mas nunca do seu pensamento.
Quando o filme acabou fiquei a pensar se Homero realmente tirou as mesmas conclusões. Lembro-me de estudar estas estórias como a exaltação de um herói e não do “vilão” que o Nolan pinta desde o primeiro momento.
O mais brilhante e inteligente herói que corrompeu o que de mais sagrado há entre espécies, a paz, para, ordenado por outro, conquistar um pedaço de terra que pode ter sido de qualquer Deus, num outro espaço-tempo. Comandou um exército que enganou, pilhou, violou, ignorou, humilhou, matou para no final ser o vencedor das cinzas.
A viagem deste herói é a recompensa por todo o mal que provocou. O troféu, uma viagem de miséria e sofrimento que o poderá ou não levar de volta a casa. A casa que as sereias cantam. O seu mundo, que deitou a perder por querer sempre mais.
Nolan consegue em vários momentos ser visceral. Não com recurso fácil ao sangue a jorrar, mas com o uso de som, muitas vezes agoniante que nos transporta instantaneamente aos nossos piores pesadelos.
Ludwig Göransson soma ao incrível trabalho de som uma banda sonora com detalhes de génio. Tirando a nota do arco de Ulisses, que adorei, não tem nenhuma melodia instantaneamente reconhecível. Pode ter sido assim pela mesma razão que não há sangue no meio de tantas armas. Para não nos distrairmos da mensagem, mais filosófica e política do que carnal. Somos seres pouco pensantes e destinados a falhar. Não porque caímos, mas por não nos lembrarmos do porquê de termos caído.
Tecnicamente, a fotografia é incrível.
Não percebi se foi intencional ou não, mas a cor parecia ter planos onde não estava igual. Fiquei se entender se era o mestre do tempo a tentar fazer alguma brincadeira.
A edição teve alguns cortes que, para mim, precisavam de mais oxigénio. Não senti necessidade de tanto corte em diálogos para criar tensão. Estão bem escritos. Talvez o problema fossem os atores. Com tantos atores, tão bons, foi difícil escolher a que reação dar mais ecrã.
A Odisseia de Nolan é uma crítica ao mundo antigo e ao mundo moderno. Somos máquinas incapazes de eliminar o erro. Na verdade não somos muito diferentes da inteligência artificial. Dizem-nos o que está mal, porque o raciocínio está errado e para reprogramar a resposta em função do erro. Tudo para voltarmos a errar.
E por tudo isto acho que este Odisseia é praticamente perfeito.
Vão mas é ver no cinema. Seja em Imax ou no Cineclube mais perto. Mas não há nada como experiência-lo numa sala escura rodeados de estranhos. E têm sido tantos estranhos. Tão bom.
Viva o cinema!
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