La Dolce Vita (1960)



"Don't be like me. Salvation doesn't lie within four walls. I'm too serious to be a dilettante and too much a dabbler to be a professional. Even the most miserable life is better than a sheltered existence in an organized society where everything is calculated and perfected." - Maddalena

"La Dolce Vita" é um clássico do cinema italiano realizado por Frederico Fellini.
Estava na minha lista de filmes para ver e, na verdade, não sabia o que esperar.
Um dos filmes que considero mais bonitos de sempre é "A Estrada" do mesmo realizador, mas este tem um tom bem diferente. Provocativo e incomodativo, o filme, que tem quase três horas de duração, retrata a vida "oca" e desolada que a elite de Roma vivia em 1960.

Ao longo das quase três horas de filme (um dos pontos menos positivos do filme) seguimos Marcello Rubini, jornalista, na sua procura insana pelo que não consegue alcançar, uma felicidade inatingível, no ambiente caótico e festivo da alta sociedade italiana da altura.

Numa primeira impressão, Fellini critica os media e a alienação que também eles incutem e provocam naquela sociedade que procura consistentemente o prazer e a fama num ambiente repleto de decadência moral. Tema este que continua ainda atual, numa altura em que "o culto das estrelas" é ainda mais alimentado, provocando um desejo em todos nós de nos tornarmos influenciadores de pensamentos ou simplesmente visíveis.

Num segundo plano, e representado logo na cena de abertura, a crítica do realizador à Igreja; com especial enfoque na criação de histórias para seduzir massas e conduzi-las a seu bel-prazer, aliando também aqui os media à construção das histórias. Uma das críticas mais visíveis disto no filme, a seguir à cena da aparição, é quando, numa igreja, uma das personagens diz sabem que ele é o demónio, mas mesmo assim deixam-no entrar.

É também nesta cena que nos apercebemos que o personagem principal gostaria de ter a vida do amigo, porque acha que ele é feliz, mas...


Uma das coisas que mais me incomodou no filme é o modo como o realizador retrata as mulheres: complexas, superficiais, símbolos de desejo e tentação; ideia que é passada em várias personagens no filme e que nos dá a perspectiva do que o realizador pensa do sexo feminino; por outro lado, tem consciência deste desejo e forma de ver as mulheres, auto-criticando-se numa das cenas que acontece a meio do filme.


A fotografia do filme é muito boa. Com imagens que foram já replicadas por diversas vezes por marcas do mundo inteiro, com especial foco na cena dentro da Fontana di Trevi.

A iluminação utilizada pelo realizador, com alto contraste, passa-nos essa mensagem dura da vida que levavam, e, em conjugação com a escala de planos que utiliza, isolam ainda mais os personagens, mostrando a solidão que vivem.

O jogo de sombras que cria, transmite o controlo que os personagens têm sobre os outros; logo na primeira cena, por exemplo, um helicóptero segurando uma imagem de cristo, e outro que o segue com jornalistas, ambos provocando sombras sobre as pessoas que os vêm passar. E há tantos exemplos de boa fotografia que só revendo o filme conseguimos apercebermo-nos de todas as intenções do realizador.

Somado a isto temos uma banda sonora interessante que transmite a vida que os personagens levam; misturada com outros temas mais populares, incluindo o jingle bells que encaixa perfeitamente numa das últimas cenas do filme, num dos momentos mais caóticos e cacofónicos e que resume incrivelmente o filme e que conduz à cena final, onde vemos que o personagem já passou para o lado de lá da fama, e que está incapaz de se conectar com o lado de cá.

"La Dolce Vita" não era o filme que eu estava à espera, mas gostei muito. Uma narrativa pesada, fragmentada e quase em episódios, como a vida. Embora, como disse no início, um bocadinho longa em algumas cenas, a crítica é ainda atual. Sociedade, igreja, relacionamentos, seres humanos no geral, ninguém sai impune, e é por isso que esta é uma experiência cinematográfica fascinante. Pensar desta forma em 1960 e retratá-lo em filme é razão mais do que suficiente para nos fazer este "La Dolce Vita".


Um 9 em 10.



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