La Dolce Vita (1960)
É também nesta cena que nos apercebemos que o personagem principal gostaria de ter a vida do amigo, porque acha que ele é feliz, mas...
Uma das coisas que mais me incomodou no filme é o modo como o realizador retrata as mulheres: complexas, superficiais, símbolos de desejo e tentação; ideia que é passada em várias personagens no filme e que nos dá a perspectiva do que o realizador pensa do sexo feminino; por outro lado, tem consciência deste desejo e forma de ver as mulheres, auto-criticando-se numa das cenas que acontece a meio do filme.
A fotografia do filme é muito boa. Com imagens que foram já replicadas por diversas vezes por marcas do mundo inteiro, com especial foco na cena dentro da Fontana di Trevi.
A iluminação utilizada pelo realizador, com alto contraste, passa-nos essa mensagem dura da vida que levavam, e, em conjugação com a escala de planos que utiliza, isolam ainda mais os personagens, mostrando a solidão que vivem.
O jogo de sombras que cria, transmite o controlo que os personagens têm sobre os outros; logo na primeira cena, por exemplo, um helicóptero segurando uma imagem de cristo, e outro que o segue com jornalistas, ambos provocando sombras sobre as pessoas que os vêm passar. E há tantos exemplos de boa fotografia que só revendo o filme conseguimos apercebermo-nos de todas as intenções do realizador.
Somado a isto temos uma banda sonora interessante que transmite a vida que os personagens levam; misturada com outros temas mais populares, incluindo o jingle bells que encaixa perfeitamente numa das últimas cenas do filme, num dos momentos mais caóticos e cacofónicos e que resume incrivelmente o filme e que conduz à cena final, onde vemos que o personagem já passou para o lado de lá da fama, e que está incapaz de se conectar com o lado de cá.
"La Dolce Vita" não era o filme que eu estava à espera, mas gostei muito. Uma narrativa pesada, fragmentada e quase em episódios, como a vida. Embora, como disse no início, um bocadinho longa em algumas cenas, a crítica é ainda atual. Sociedade, igreja, relacionamentos, seres humanos no geral, ninguém sai impune, e é por isso que esta é uma experiência cinematográfica fascinante. Pensar desta forma em 1960 e retratá-lo em filme é razão mais do que suficiente para nos fazer este "La Dolce Vita".
Um 9 em 10.
Comentários
Enviar um comentário